OPINIÃO


A ENGENHARIA DO CONSENTIMENTO

 

Desde 1650 acredita-se que "não signifique qualquer infração à democracia o fato de o sistema de informações estar sob o controle de algumas corporações". Chegando-se mesmo a admitir que "esta é a verdadeira essência do processo democrático", também entendida, no dizer de Edward Bernays, como "a liberdade de persuadir e sugerir", por ele chamada de "a engenharia do consentimento".
Segundo esse esdrúxulo raciocínio, "se a liberdade de persuadir estiver concentrada nas mãos de poucos, devemos reconhecer que esta será a natureza de uma sociedade livre". Parece piada, se não for um pensamento com algum traço fascista, ressalvando-se aqui o indevido juízo de valor.
Existe uma verdadeira indústria de relações públicas, que no início do século 20, nos EUA, empregou expressivos recursos "na educação do povo americano a respeito dos aspectos econômicos da vida" com a preocupação de criar um clima favorável aos negócios. Segundo a observação de um executivo da AT&T oitenta anos atrás, o objetivo dessa indústria de relações públicas é o controle da "mente do público", o único perigo mais sério para a companhia.
"Modernas oficinas de trabalho" e outros artifícios contemporâneos de doutrinação e persuasão foram concebidos para "mudar as atitudes e valores dos trabalhadores", transformando a sua apatia operacional numa aliança corporativa. O que não se obtém sem o uso de uma propaganda maciça e sistemática, destinada à "manipulação inteligente dos hábitos e opiniões das massas", elemento considerado de grande importância numa sociedade democrática... Para aqueles que acreditam que o povo precisa ser doutrinado, ou convenientemente manipulado, para poder beneficiar-se da democracia.
O que é diferente de o povo ser educado para o mesmo fim.

 
Rio, 29/01/2017
Aluizio Rezende

 

JOGO MARCADO

 

A literatura que se detém na nova ordem mundial estabelecida pelo Ocidente após o término da Segunda Grande Guerra, talvez nos permita dizer que, seja em relação aos países em desenvolvimento, seja em relação aos que estejam num estágio superior, como as nações do leste europeu sob influência soviética no passado, nos dois casos, na eventual necessidade da restauração da tradicional ordem conservadora, ainda é necessária a destruição da resistência antifascista. Que se dá através do enfraquecimento dos sindicatos e outras formas de organização popular como meio de se evitar a ameaça de uma democracia mais radical e reformas sociais.
Só um poder conservador ainda marcado, de algum modo, por raízes fascistas, ou pelo menos reacionárias, pode explicar a diferença brutal, que a cada dia se acentua, entre os poucos que têm acesso a quase tudo e os muitos que têm acesso a quase nada. E isso se explica também pelo enfraquecimento das organizações populares e sindicatos cujas lideranças parecem perder o fôlego original quando começam a tomar parte no jogo do poder. Tornam-se vereadores, deputados, senadores e até presidentes da República e, imiscuindo-se com o poder conservador estabelecido, deixam de lado a força de trabalho que pretenderam representar e que se constitui no maior contingente populacional, além da que de fato mobiliza o país.
A relação patrão-empregado jamais será equânime. Pelo menos no mundo em que aprendemos a considerar o lucro ou a acumulação de capital como a razão de nossas vidas. O patrão tem que ter lucro, sim.
Sua empresa vai possibilitar ganhos aos empregados que vão garantir a sua sobrevivência e a da família. Mas o empregado não precisa ter só prejuízos. Com um salário aviltante, o pagamento de altos impostos, uma reforma previdenciária que reduza, na aposentadoria, seus vencimentos na vida funcional ativa em 50%, etc.
A manutenção desse quadro só interessa a um lado, o lado da elite conservadora, frequentado pelos mais poderosos.
A redução desse desequilíbrio, como é lógico, interessa aos dois lados e vai incidir diretamente no fortalecimento da nação, apontando para a sua independência.
Isso não vai é interessar às nações superdesenvolvidas que dominam o Ocidente, muito mais favoráveis às políticas reacionárias ou fascistas cuja implantação procuram favorecer nos países sob sua influência, através, por exemplo, de suas agências de inteligência especializadas em terrorismo. No intuito de que seus interesses – muitos deles ilícitos – na região não sejam prejudicados. Ou de que o seu domínio não sofra interrupção.

 

Rio, 13/01/2017
Aluizio Rezende

 

 

As revelações

 

As delações premiadas obtêm de forma humana e com acesso a todos permitido o que as sessões de tortura obtinham de forma desumana, na ditadura, e devia permanecer, de preferência, de todos escondido. No entanto, elas só deveriam ser divulgadas depois de homologadas ou, de preferência, depois que ficassem comprovados todos os ilícitos atribuídos às pessoas denunciadas.

A condição de presidente ou ex-presidente da República, assim como de um ministro de Estado, não exime essa pessoa de culpabilidades que a ele/ela possam ser atribuídas. Estamos vendo isso na Coreia do Sul. No entanto, a propagação na mídia – cujo interesse é, antes de tudo, comercial – de notícias ainda não verídicas, além de ser injusta, pode provocar uma convulsão social, dependendo da importância política da pessoa envolvida. De qualquer modo, e em qualquer extensão, os juízes e procuradores têm o dever de tudo fazer para que as notícias não sejam manipuladas pela mídia a ponto de transformar num ladrão, criminoso ou propineiro alguém cuja culpabilidade não tenha sido suficientemente comprovada.

Nesse sentido, a divulgação de conversas entre a Dilma e o Lula antes do tempo deveria merecer, como mereceu, reprovação. A sua divulgação com certeza teria tido um peso maior depois de esgotadas todas as possibilidades de defesa constitucionalmente ao dispor dos acusados.

Na provável ausência da mídia nas sessões de delações premiadas, a sua divulgação só poderá ser atribuída aos juízes, procuradores e advogados envolvidos no evento. Dessa forma, por uma questão de justiça, na contingência de não se poder impedir essa divulgação, caberia aos juízes e procuradores, num manifesto à sociedade, dizer que ninguém poderá ser culpado de nada até à comprovação dos ilícitos de que estejam sendo acusados.

Isso não tira o mérito, em absoluto, dos chamados acordos de leniência, capazes de revelar detalhes do que ocorre nos bastidores da desacreditada política nacional. Detalhes que de modo algum de outra forma seriam conhecidos pela sociedade.

 

Rio, 15/12/2016
Aluizio Rezende

 

Dinâmica darwiniana

Os estudos de Darwin sem dúvida influenciaram o homem moderno. Sobretudo no que diz respeito à preponderância, que seria natural, dos seres mais fortes sobre os mais fracos. Ainda que os mais fracos não estivessem ou estejam de acordo. É natural, portanto, que um grupo de leoas ataque um indefeso bezerro para saciar sua fome. Como qualquer predador. Ou então para o treinamento de seus filhotes para a sobrevivência. Mas não é menos natural que os pais do bezerro se reúnam e eventualmente ponham os covardes leões pra correr. Muitos logo se apressarão em dizer que predadores não são covardes.Basicamente são considerações desse tipo que levam à afirmação de que "os árabes não têm direito ao petróleo que por acidente geológico aconteceu de se encontrar sob seus pés". Como afirmou Walter Laqueur, historiador e comentarista político, em 1973, ao dizer que "o petróleo do Oriente Médio deveria ser internacionalizado, não para o favorecimento de algumas poucas companhias de petróleo, mas para o benefício do resto da humanidade". Sabendo-se que por internacionalização deve-se entender "o controle dos EUA e seus clientes (enquanto mantenedores ou protetores do Estado de Israel)". E por algumas companhias de petróleo deve-se entender "as indignas árabes".Também sob o mesmo raciocínio darwiniano, considera-se "injusto que valiosos recursos fiquem em mãos de povos sem importância enquanto deles necessitam homens ricos que mandam no mundo". E ainda a afirmação de que "os ineficientes e miseráveis mexicanos não têm direito algum de controlar os destinos de suas ricas terras".Foi o que levou, como último exemplo, na virada do século (19/20), o oficial estrategista da Marinha dos EUA Alfred T. Mahan, conhecido por sua devoção aos valores cristãos, à argumentação de que "os direitos naturais às coisas deveriam ser modificados quando se referissem a nações ineficientes como a China, sendo administrados de forma a garantir o amplo direito do mundo aos recursos que ficassem ociosos ou inaproveitados".Considerando-se que é essa ainda a dinâmica do pensamento ocidental e que possue o Brasil as maiores reservas de água doce do mundo, além de raros minerais, como o nióbio, e reservas de outros, como a bauxita, o manganês, etc., ainda não esgotadas totalmente, devem nossas autoridades e o povo estar precavidos contra a cobiça de nações mais potentes e desenvolvidas que queiram dessas riquezas se apropriar, sob o pretexto de ser para o benefício de toda a humanidade. Desde que sob o controle e administração deles, que se julgam com maior competência para isso.

 Rio, 14/12/2016
Aluizio Rezende

 

Caesar salad
Segundo os estudiosos, a dívida pública brasileira é da ordem de 70% do PIB – ou seja, 70% de tudo que produzimos é igual ao que devemos –, enquanto “a previsão mais otimista de crescimento do PIB para 2017 é de cerca de 1,5%”. Donde se conclui que em 2017 deveremos presumivelmente amargar um franco período de empobrecimento.
A oposição atribui ao Temer, que já militou na presidência ao lado da Dilma, a existência de 12 milhões de desempregados no país, o que não deixa de ser uma injustiça, porque ele não teve tempo para isso tudo. Por outro lado, esquece-se a oposição de que a dívida pública se estabilizaria por volta de 95% em 2025, quase duas vezes o tamanho da dívida pública recebida pela Dilma. O que significa um tempo de carência de pelo menos 9 anos para que a dívida pública se estabilizasse no valor de duas vezes o tamanho da que a ex-presidente recebeu para administrar.
A relação dívida pública/PIB sempre irá proporcionar um apurado retrato da saúde econômica do país. Os gastos públicos deverão ser contidos para que o endividamento não prevaleça. Em nossa casa, se não formos criteriosos com os gastos, a tendência é que nos endividemos mais rapidamente. Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central nos dois governos Lula (2003-2010), é um dos prováveis idealizadores da PEC 241, cuja aprovação não está sendo bem digerida pelos petistas hoje na oposição.
Tudo isso é muito engraçado ou irônico, se não for contraditório. Em alguns casos, as mesmas pessoas que foram governo agora estão na oposição, sendo que alguns conseguem servir a Deus e ao diabo ao mesmo tempo, pois continuam sendo governo independentemente dos que se encontrem na oposição ou não.
Por outro lado, o Ministério Público, tantas vezes contrário a petistas em denúncias e ações envolvendo ilícitos por eles cometidos, agora alinha-se à oposição contra a PEC 241. Mas neste caso, o que é vergonhoso, por motivos estritamente corporativos.

Rio, 12/10/2016
Aluizio Rezende

 

Feridas escondidas
Há coisas simples de que sempre nos esquecemos. E parecem novas quando alguém diz. Por exemplo: “É fácil entender os males físicos: a gente toma remédio. Mas a doença mental assusta: não se enxerga a ferida”.
O problema pode se agravar, e às vezes até tornar-se patético, quando começamos a desconfiar ou perceber que, no fundo, quase todos nós sofremos de algum modo de algum tipo de doença mental, normalmente com base em motivos religiosos – contraídos lá atrás, quando éramos pequeninos – ou políticos – absorvidos depois de mais crescidinhos.
Problemas mentais de diferentes níveis que ficam escondidos sob a pele, alguns inofensivos. Mas quando são mais atuantes ou degenerativos, ainda que camuflados e aparentemente comportados, não passam de uma reação química dentro do cérebro dos mais influenciáveis. E podem se tornar contagiantes e atrair uma legião de seguidores que, com certeza, acabarão fazendo mal a alguém. Através de grupos, seitas, clãs, congregações ou correntes políticas admitidas como as únicas com possibilidade de serem aceitas por todos.
Aí as feridas podem aparecer. Preferencialmente nos outros – aqueles cujos problemas mentais não sejam ainda dignos de nota ou estejam com segurança mantidos sob controle.       

Rio, 11/10/2016
Aluizio Rezende

 

Domínio

"Liars, liars", as pessoas gritavam enfurecidas quando os três nadadores americanos deixavam a delegacia após prestarem depoimento. O quarto, aparentemente o líder do time, já estava sob proteção em sua terra. Como? De que maneira conseguiu evadir-se, não ficamos sabendo.
O fato é que, dependendo da situação, até o protesto é feito por brasileiros em inglês. Acabamos falando a língua... naturalmente.
O próprio Policarpo Quaresma já deve saber disso há muito tempo e já parou de reclamar. Até porque os índios que não foram dizimados devem estar lecionando inglês ou tentando o seu Proficiency Certificate in English no IBEU ou na Cultura.
Essa dominação cultural é inevitável. Trata-se da língua internacional. Pretende-se que seja a segunda língua de qualquer país do mundo. Nesses jogos olímpicos ouvimos de estrangeiros a reclamação de que não estavam em inglês certas designações de lugares e outras. Como se isso fosse obrigatório. E parece que é. Numa ocasião, ao falar (bem) do genro, a mãe nos dizia: "Ele fala alemão, francês, russo, esloveno, mandarim...". Então perguntamos: "E inglês?" Resposta: "Ah, 'isso' nem se fala!"
Muito de acordo, mudando um pouco o escopo, com o que disse Saramago: os EUA têm bases militares em todo o mundo, mas nenhum país tem base militar nos EUA.


Rio, 20/08/2016
Aluizio Rezende

 

Manchas e marcas

PEN não é caneta, mas tem a ver. Porque poderia referir-se a um Projeto de Educação Nacional que não seria concebido sem a abalizada intervenção do jurista, intelectual e emérito educador Anísio Teixeira. 
Ao lado de Darcy Ribeiro, Anísio foi um dos fundadores da Universidade de Brasília, em 1963, tendo se tornado reitor. No ano seguinte, com a implantação da ditadura militar, Anísio “afasta-se do cargo e vai para os EUA, lecionar nas Universidades de Colúmbia e Califórnia”.
Enquanto no Brasil teve que abdicar de cargos e funções por suas alegadas convicções comunistas, segundo os militares e comissões de bispos da Igreja Católica, nos EUA, país de perfil notadamente anticomunista à época, Anísio era respeitado e jamais foi incomodado por órgãos repressores tais como o FBI, por exemplo. 
Apesar das suas alegadas tendências esquerdistas, um dos poucos processos educativos de que não tinha conhecimento era exatamente o comunista.
Aqueles que ainda hoje temem ou repelem com veemência pessoas tidas como comunistas precisam primeiramente admitir a necessidade de se atualizarem. E não permitir que o preconceito impeça que reconheçam os atributos e o trabalho daqueles de quem ainda fazem questão de desconfiar.  
Infelizmente a nossa esquerda hoje está grandemente maculada, a partir de comportamentos de seus políticos que muito se assemelham ao que criticavam antes de 64 e, pelo menos, até algum tempo após o término do período ditatorial. Hoje praticamente encontramo-nos na contingência de não podermos separar o joio do trigo. No entanto, até por isso mesmo, não podemos partir do princípio de que os adeptos do comunismo/socialismo são pessoas que necessariamente se relacionam com a corrupção ou com o aproveitamento dos cargos que ocupam para práticas delituosas envolvendo o desvio de verbas públicas. Pois não foi esse o caso de Anísio Teixeira que, aliás, nem era comunista, e muitos outros com inestimável folha de serviços prestados ao país. E vivos até hoje.


Rio, 03/07/2016
Aluizio Rezende

 

Duas velocidades

O "Beijo no Asfalto". Essa e tantas outras peças do implacável e um dos maiores mestres da dramaturgia brasileira. Capaz, portanto, de ser professor de todos nós com seus ensinamentos. Nelson Rodrigues. 
No entanto, apesar de todo esse merecido reconhecimento, não podemos admitir, sem restrições, que "a unanimidade é burra" e que "toda mulher gosta de apanhar".
Do ponto de vista do ateu, por exemplo, a unanimidade seria burra. Talvez fosse menos inexato dizer que "quem tem cú, tem medo". Porque não tememos apenas nossos semelhantes, mas, e especialmente, tudo o que nos cerca e ameaça a nossa existência. Um Tupã colérico ameaça a todos os índios, comprovadamente sociedades muito mais evoluídas que as dos homens brancos. O medo do que vem depois pode ser uma das maiores justificativas para a existência de tantas religiões. Que por isso mesmo, na verdade, não diferem muito entre si. Quando dizemos que todos podem ser burros, estamos sendo honestos. E imaginamos nada temer. Mas nos colocamos sobre um pedestal, a partir do qual ignoramos o clamor coletivo. Sobre o que quer que nos cerque. Na verdade, são dois pontos de vista totalitários.
Por outro lado, não há mulher que goste de apanhar. Porque ninguém gosta. Se não fosse assim, não haveria a reação instintiva de se defender. A mulher que ama, perdoa. O que é diferente. Porque o amor é por natureza, sugerimos, partidário da tolerância e do perdão. No entanto, e por isso mesmo, quem ama não mata. E os danos físicos causados a uma pessoa configuram-se num dos estágios anteriores à irreversibilidade da morte. Não se encaixam dentro do grupo de arranhões que afetam o espírito, mas que são depois apagados pela necessidade que temos de ter a nosso lado a pessoa que amamos. Só assim se explica o fato de uma mulher trair o marido e ele, mesmo sabendo disso, continuar ao lado dela. Ou vice-versa.
Quem somos nós para ensinar missa a padre. Mas temos o direito, ou quem sabe o dever, de sermos burros e errarmos nas nossas conclusões.

Rio, 04/07/2016
Aluizio Rezende

 

 

A questão do golpe
Não podemos crer que o golpe hoje tenha sido engendrado no exterior como em 64. Basicamente na White House, com Kennedy, Vernon Walters, Kissinger e outros menos votados, conforme a farta literatura agora disponível.
Os mesmos interesses podem até estar camuflados, mas o golpe agora, imaginando-se que esteja em andamento, seria muito mais decorrente dos descaminhos de um governo que perdeu o rumo empreendido a partir de relações e envolvimentos com um lado tradicionalmente marcado pelo oportunismo, fisiologismo e alijamento da parte maior da sociedade dos benefícios a que teria direito com o progresso da nação. A ponto de não se poder separar o joio do trigo.
Se ainda pudermos falar em direita e esquerda, separadas agora por uma linha cada vez mais indistinguível, devemos lembrar que a direita é o lado dos empresários, das elites, política e econômica, da manutenção dos benefícios e vantagens fora do alcance do cidadão comum e outras prerrogativas. Enquanto que à esquerda estaria reservado o combate a tudo isso e, logicamente, à corrupção. Um esquerdista convicto jamais poderia ser identificado como um corrupto. Mas será que o partido ainda no governo teria condições de se imaginar inteiramente assim?
Hoje, infelizmente, já não se pode dizer o mesmo. Isto é, não há fundamentalmente esquerdistas convictos. Ou estarão escondidos?

Rio, 11/05/2016
Aluizio Rezende

 

Religião, arma letal
Nossas condolências aos parentes dos que pereceram na noite ou madrugada de ontem em Orlando, EUA, na boate “Pulse”.
Qualquer religião quando tende ao fanatismo e à intolerância é degenerativa. Tende à degeneração de todo o organismo, notadamente em termos da função psíquica e da capacidade de raciocínio. Talvez seja essa a explicação para que existam os que acreditam apenas numa única verdade, a que terá sido difundida e ensinada pelo profeta ou liderança maior que assume assim a condição de um deus. Já que tem de haver um.
É dessa forma que várias religiões são homofóbicas, condenam a forma de amor igualitário e são capazes de fazer com que pessoas concordem em ser utilizadas como homens/mulheres-bombas em atentados terroristas. Que eles acreditam serem religiosos.
É próprio do gênero humano, especializado na criação de fórmulas, normas, condutas, lemas, leis, verdades, conceitos, pareceres, estipulações as mais diversas destinadas ao comportamento que devem ter as pessoas para que suas vidas possam ser aceitáveis em uma comunidade. A contrariedade de determinada postura pode inviabilizar a vida de certo indivíduo dentro de um grupo. Se um indivíduo é identificado como praticante do que não é aceito pela comunidade, normalmente por determinação religiosa, é ele obrigado a desistir de viver naquela localidade. E, às vezes, em localidades em que tais contrariedades sejam toleradas, acontecem atos extremistas como o de ontem em Orlando, no EUA, onde foram assassinadas de uma só vez 50 pessoas e 53 ficaram feridas. É o que parece ter sido a motivação maior para a tragédia.

Rio, 12/06/2016
Aluizio Rezende

 

Balcão de negócios
Não é possível que seja assim em outros países. Pelo menos nos mais desenvolvidos. As pessoas serem nomeadas para cargos importantes da administração não em função da sua competência, mas da sustentabilidade que possam oferecer ao governo que as nomeou.
O atual governo fez isso majoritariamente com o PMDB, partido conhecido por seu fisiologismo e oportunismo, características condenadas pelo PT no tempo da sua fundação. O PMDB, vendo o barco fazer água, resolve abandonar o governo, embora alguns de seus membros pretendam se agarrar aos cargos que ocupam. E o governo volta-se para qualquer partido ou para os partidos de menor expressão, numa atitude desesperadora no sentido de obter apoio que impeça o seu esfacelamento.
Dramático e patético o momento brasileiro, com o povo sofrendo as consequências de uma inflação que começa a ficar incontrolável, com as agências internacionais de classificação de risco rebaixando o Brasil com mais frequência e com bilhões e bilhões de dólares dos cofres públicos em mãos desautorizadas a possuí-los.

Rio, 31/03/2016
ar

 

   

Caça à bruxa
“Não se afigura razoável que a presidente da república deste país tente obstruir o curso da Justiça em qualquer grau de jurisdição. Efetivamente não pode o Juiz julgar com base em fatos narrados pela mídia e sem conhecimento amplo do processo, embora estes fatos possam servir como vetor de investigação. No entanto, uma vez retirado o sigilo dos processos oriundos da operação Lava Jato, tenho que os fatos ali veiculados maculam, de forma indelével, a reputação do referido cidadão que pretende agora o cargo de ministro de estado, para obter o privilégio de foro”.
São palavras da juíza Regina Coeli Formisano, da 6ª Vara da Justiça Federal no Rio de Janeiro.
Essa senhora, a exemplo de Joaquim Barbosa, Rodrigo Janot, Sérgio Moro, o juiz Catta Preta, da 4ª Vara do Distrito Federal, e tantos outros, a partir do seu pronunciamento e decisão, pode se tornar alvo do furor ou ódio dos que defendem a manobra, no mínimo, espúria em que se transformou a nomeação do ex-presidente Lula para o cargo de ministro.
Vamos (os governistas) agora tentar descobrir o que eventualmente ela tenha feito de errado, já que todo mundo "pisa na bola" em algum momento de sua vida, para justificarmos todos os atos escusos, ou com as piores justificativas, que tenham sido cometidos por aqueles que intransigentemente defendemos.

Freixo, Portugal, 18/03/2016
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Aspectos construtivos

Leis existem para serem respeitadas por todos, e não apenas por alguns. É um princípio democrático. A partir do qual podemos dizer que não há justiça que se faça sem isenção.
Nesse sentido, causa estranheza o fato de ferrenhos adeptos do partido governista transformar em inimigos declarados todos os que ousam discordar, recriminar ou condenar qualquer ato, por mais insignificante que seja, que tenha sido cometido ou defendido por esse partido.
Foi assim, de início, com o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa. Depois com o juiz federal Sérgio Moro. Mais adiante com o Procurador-geral da República Rodrigo Janot. E agora com o ministro do STF Teori Zavascki. Todos são passíveis de críticas negativas. Temos certeza de que se essas autoridades não tivessem tido posições contrárias a determinadas pessoas, implicadas em ilícitos alarmantes e eventualmente envolvidas com o partido governista, ou nele, o PT e seus ferrenhos defensores nada teriam contra elas. Não haveria nisso certo aspecto corporativista?
Joaquim Barbosa sumiu. Chegaram a pensar em seu nome para candidato à Presidência da República. Chegaram a cogitar também que ele teria sofrido algum tipo de ameaça, tendo por isso ocorrido o seu sumiço.
Do Moro, devida ou indevidamente, tentaram retirar as incumbências que ele tinha para continuar com certas apurações/investigações que vinha fazendo.
De qualquer forma, qualquer postura que implique na condenação da forma com que  o país vem sendo administrado corre o risco de ser identificada como golpe. Desse modo, dos 200 milhões de brasileiros, pouco menos que 50% (ou vamos preferir 40%) seriam golpistas. Claro que isso seria improvável, pois em 40% dos brasileiros não encontraríamos apenas representantes de classes mais favorecidas. Partindo-se do princípio de que só entre esses, dentre os mais abastados, se encontram os que desejam a saída da Dilma.
Por outro lado, seria um erro considerarmos que representantes da elite, para não dizermos direita, tais como Aecios, FHCs, políticos do PSDB, DEM e outros partidos, alguns deles cúmplices ou em exacerbado conluio com petistas, seria um erro acharmos que eles possam oferecer algum tipo de resposta que represente o que o povo deseja. Ou seja, não têm também tanta credibilidade.
Só que não se trata disso. Se estamos no poder, e enquanto nele estivermos, trabalhando para dotarmos o país de uma estrutura político-administrativa capaz de viabilizá-lo, convém peneirarmos a areia de que dispomos para retirar-lhe as impurezas e obter um concreto cuja mistura seja dotada de qualidades que lhe garantam a consistência.

Rio, 16/10/2015
Aluizio Rezende

 


Rinaldo Leite.

 

 

Avaliações, pronunciamentos e canonização

O juiz Sérgio Moro virou um caso de ódio para os que lhe são contrários. É compreensível isso. O acirramento das paixões nos impede de ver o que não queremos enxergar.
Contudo, para aqueles que não temem andar ao lado da isenção, por acreditarem que assim se habilitam a avaliações mais justas, certos pronunciamentos do citado magistrado são merecedores de atenção.
Como os que encontramos em trechos do relato sobre a palestra ministrada por Moro a estudantes universitários brasileiros em Chicago recentemente.
Para Moro, por exemplo, têm de ser públicos os casos judiciais que envolvam corrupção. “A Constituição é muito clara ao dizer que o processo deve ser, em regra, público, e não em segredo”. Como “garantia para o indivíduo que é processado e para a sociedade que tenha condições de assistir a Justiça Criminal”. De fato, por que manter em segredo, ou escondidos sob o tapete, manobras e engendramentos que podem ser nocivos à sociedade?
Num outro ponto do relato, lemos que Moro admite “cometer erros, mas que suas decisões são revisadas nas instâncias superiores da Justiça...”. Donde se conclui que as decisões do juiz não são de modo algum absolutas, podendo ser mantidas ou revogadas.
Por outro lado, por tudo o que é noticiado quase que diariamente, nos parece totalmente irrefutável a observação de Sérgio Moro de que a Operação Lava-Jato “mostra que a corrupção é sistêmica”, sendo pertinentes suas “críticas a empresas que pagam propinas”.
Segundo ainda o relato sobre o que o juiz disse aos estudantes em Chicago, Moro compara a Lava-Jato a Operação Mãos Limpas, na Itália, afirmando ainda que o fato de o Brasil alcançar “maturidade institucional para avançar após a conclusão da operação... não dependerá dos juízes, e sim dos políticos e da sociedade”. Esclarecendo, por inteiramente oportuno, que “o Brasil não deve ter a cultura messiânica de se esperar um Salvador”.
Depois dessa leitura, ou a partir dela, temos razões para ter como insuspeito, apartidário, responsável e merecedor de grande parcela de credibilidade o trabalho que vem desempenhando o juiz de Curitiba. Permanecendo a ele contrários aqueles que permaneceriam da mesma maneira ainda que Moro tivesse sido recentemente canonizado.

Maricá, 09/04/2016
ar

 

Mea culpa
Quando falamos que o PT traiu os que nele acreditaram, entre esses muitos podem dizer a mesma coisa sem grandes convicções, como quem pega o bonde sem saber para onde vai. Mas outros possivelmente sabem do que estão falando.
Como pode, por exemplo, o governo petista recomendar para o TCU, provavelmente com o indigno fim de protegê-lo, um ex-senador (Gim Argello) que “coleciona inquéritos no STF”? Que condições teria essa pessoa de julgar as contas da União, a não ser no favorecimento do próprio governo? Não são traídos dessa forma os princípios éticos do partido, que conquistaram à época da sua fundação a admiração de expressiva parcela da população?
E foi só com esse cidadão? E as ligações com Delcídio do Amaral, que não pertencia ao PT, mas que chegou a ser líder do partido no Senado? E depois, ou antes, com Sarney, Maluf, Jader Barbalho, Bumlai e tantos outros notórios representantes da elite burguesa ostensivamente combatida pelos que se dizem esquerdistas?
Será que adianta dizer que isso também ocorreu no governo FHC ou com o partido do Aécio, etc.? Se ocorreu, é igualmente deplorável, mas não significa dizer que tenha que continuar acontecendo, como se um erro justificasse o outro. Sobretudo a partir do governo de um partido que acreditávamos estar acima dessas manobras ignominiosas e traiçoeiras.
O que se quer, sabemos que é simplesmente o impossível: que os defensores do governo continuem defendendo-o, mas que tenham o elevado caráter de admitir e reprovar os seus crassos desacertos.

Rio, 13/04/2016
ar

 

A classificação

Não é novidade dizer que a guerra é um bom negócio. Altamente lucrativo. Se os povos que trazem na veia o sangue de negociantes são também os detentores de expressivo poderio bélico, necessariamente serão eles os maiores interessados na fabricação de guerras. Ou que elas não deixem se existir.
Nesse sentido, o 11 de setembro (o ataque ao WTC em Nova Iorque) favoreceu o surgimento de empresas privadas de segurança que se enriqueceram da noite para o dia com o negócio da guerra de ocupação do Iraque, dentre outras. Tornando-se talvez mais relevantes que as forças regulares do exército dos EUA e dando um “novo rosto à maquina de guerra americana”. Um rosto empresarial.
Vivemos num tempo “em que cada aspecto da vida está sendo radicalmente privatizado – escolas, atendimento de saúde, prisões, operações de segurança doméstica, inteligência, serviços municipais”. Essa última citação, encontrada no livro “Blackwater”, de Jeremy Scahill, sobre “o exército mercenário mais poderoso do mundo”, não diz respeito a uma prerrogativa dos países mais avançados. Trata-se da tendência natural de um mundo que curiosamente consideramos moderno. Em que o dinheiro assume cada vez mais um gigantismo sem condições de ser contido.
Políticas conservadoras e neoliberais têm tudo a ver com o acirramento dessa guinada materialista que implica na redução da importância do ser humano. Daí, por exemplo, civis inocentes serem indiscriminadamente assassinados por forças mercenárias privadas de segurança por esse mundo afora sem que os autores desses crimes sejam responsabilizados. Ao contrário, em muitos casos tais forças privam da imunidade que lhes é concedida pelos países a que servem, dada à influência política dessas potências no cenário mundial e ao seu poderio bélico-nuclear.     
A propósito: imunidade e impunidade – o casamento perfeito. Cujos resultados preferenciais não poderão deixar de ser, antes de mais nada, a injustiça e a corrupção:
Injustiça que se verifica com a possibilidade de mudança de governos e anexação de territórios pelos países com maior poder de fogo do planeta, mediante o auxílio de forças privadas de segurança por eles contratadas. E corrupção (e também injustiça) como no caso brasileiro, onde o cidadão comum é preso e condenado por crimes às vezes de menor importância, enquanto políticos, juízes e poderosos dispõem de instrumentos como o foro privilegiado – quando não, de dinheiro ou tráfico de influência – para a sua proteção no cometimento de crimes muitas vezes muito mais expressivos e danosos para a nação.
Essa realidade sujeita os países a uma classificação, tendo alguns na ONU prerrogativas que outros não têm, como o direito de veto. Como também sujeita os cidadãos a diferentes tipos de categoria como 1ª, 2ª, 3ª... ou nenhuma.

Rio, 14/01/2016
Aluizio Rezende

 

Cassino de palavras
O texto nada mais é que um arranjo com as mesmas palavras. No belo poema ou romance, o autor usou o mesmo conjunto de palavras à disposição de qualquer um. A escolha dos vocábulos e a sua associação com os outros é que fez a diferença. Às vezes o significado nem é tão importante, muito menos o significante. O significado surge com o texto. Pode ser também que o autor tenha querido de fato dizer aquilo. Ou acabou se aproximando.
Aliás, o significante pode ser insignificante. A palavra “saudade” sozinha fará sentido? Sem nada a que possa estar associada? O próprio termo “amor”, que todos presumimos o que seja, embora não o possamos definir em sua plenitude, será que sozinho adquire a força que tem quando atrelado a alguém ou a alguma coisa?
Com a palavra, qualquer palavra, espera-se, em consequência, uma definição – o significado. Com o número, não. Puxo da sacola o número 5. Quem tiver o 5 ganhou o prêmio. Mas o 5 é apenas uma referência. Nada além disso. Como são os outros números. O significado não está no número, por maior ou menor que ele seja. O que ele nos aproxima de fato é da ilusão.
Puxo da sacola a palavra “saudade”. Bem, ela terá que estar atrelada a algo. Saudade de alguém, do tempo em que era criança, do tempo em que não se pagava estacionamento e nem havia tantos carros na rua. Sem uma história, sem um conteúdo, sem um significado não haverá sentido.
Mesmo os vocábulos eruditos ou pouco utilizados terão que se relacionar a outro. Até para que possamos ver se de fato se acham integrados ao contexto. Precisarão sempre de uma frase ou oração. Sozinhos sabemos o que são, mas estarão incompletos. Cinco é 5 e pronto. Bananas, canoas ou mil reais. Nunca vai passar disso. Tal como 8, 15 mil, etc.
Por isso seria mais interessante se tivéssemos um cassino de palavras. A satisfação seria bem maior do que a que se obtém com o cassino tradicional. Pela surpresa e encantamento com as coisas que eventualmente viéssemos a dizer. Face à imprevisibilidade de seu conteúdo. Tornando-se menor a dependência. Já que no cassino tradicional a dependência se relaciona diretamente ao que esperamos ganhar e já está estipulado. Parecendo residir no terreno da ilusão.

Maricá, 02/01/2016
Aluizio Rezende

 

Alunos Nota Dez
Os dois brasileiros atingidos passam bem. Mas podia ser um de nós, esses privilegiados que conseguem visitar a Cidade Luz. Porque a maioria é assaltada dentro de um ônibus, onde pode receber um tiro. Ou é vítima de bala perdida nas nossas favelas.
De qualquer modo, essas ações, de prático, o que vão conseguir? Será que o objetivo é simplesmente o da vingança? Ou colocar o Ocidente no seu lugar? Resumindo-o à sua condição de imundície? Dizendo pra ele que a sua Ordem Mundial foi sempre desumana, hipócrita, injusta, incorreta, e que a que o confronta agora é que é a certa? Ou será o atendimento a orientações divinas de um Deus que, na sua determinação de ser justo, é severo e punitivo? Não se opondo a processos de eliminação física indiscriminada de pessoas na rua, em bares, clubes, restaurantes ou estádios de futebol?
Que pai é esse que manda matar e não quer saber de perdão, se essa for de fato a orientação? Que concorda com o apedrejamento até à morte da mulher que traiu o marido, mas o preserva se ele fez o mesmo com sua mulher? Que não admite que seu filho tenha nota inferior a dez?
Sabemos que o Ocidente tem tratado muito mal os negros, os muçulmanos, os afegãos, os árabes, os sírios, os armênios, etc., assim como as minorias em países da própria órbita ocidental. O mundo clama por justiça que, em princípio, poderia ser decorrente do controle do inevitável (?) expansionismo dessa praga chamada capital.
Mas será com essa truculência? Com o poder do amedrontamento? Com a certeza de que ações desse tipo podem ocorrer em qualquer lugar? Como na provável explosão criminosa de um avião russo com 224 pessoas a bordo, incluindo-se 25 crianças? Que o Ocidente não chorou tanto? Com a garantia de que existem pessoas dispostas a dar suas vidas, com explosivos presos ao próprio corpo, para a consecução desses objetivos?
Casos em que a vida já não é sua. Está atrelada a uma razão. Divina(?). Que não se precisa entender. Basta aceitar e obedecer.
Talvez a gente ainda se surpreenda porque sejamos egoístas. Ao pensarmos que a vida é nossa e que não devemos perdê-la de vista.

Maricá, 14/11/2015
Aluizio Rezende

 

Aniversário do ECA
O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) completa hoje 25 anos. Data que nos remete aos dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) segundo os quais “o número de homicídios de crianças e adolescentes (...) passou de 5 mil casos por ano, em 1990, para 10,5 mil casos por ano em 2013”. O que significa que perto de 28 crianças e adolescentes são assassinados por dia no Brasil.
As principais vítimas, para o Unicef, são meninos negros e pobres, vivendo “nas periferias e em áreas metropolitanas das grandes cidades”. Sustenta a organização que morrem quatro vezes mais adolescentes negros que brancos. E que, sendo o adolescente do sexo masculino, o risco de ele ser vítima de homicídio pode ser multiplicado por 12.
Para o Unicef, estamos apenas atrás da Nigéria “no ranking dos países com maior número de assassinatos de meninos e meninas de até 19 anos”.
Também o Unicef se coloca contra a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos por não se tratar de uma medida benéfica. Garantindo que a solução estaria na aplicação diária do que consta da legislação. Não é posição de que se deva discordar.
Entretanto, quais as chances práticas de que as medidas socioeducativas previstas no ECA possam contribuir para a ressocialização de um adolescente que estiver internado num estabelecimento correcional durante três anos, em condições às vezes similares às cadeias brasileiras? Isto é, um sistema prisional falido, caracterizado pela superlotação, torturas sistemáticas e com precárias chances de possibilitar a reintegração de alguém?
Um dado que nos chama atenção é que, segundo ainda o Unicef, “apenas 0,01% dos adolescentes brasileiros praticaram atos conta a vida”. Apesar de se tratar de uma porcentagem aparentemente pequena, pode ser que ela se amplie na exata medida em que, segundo as próprias estimativas do Unicef, sendo mantidas as condições atuais, o país pode registrar 42 mil assassinatos de adolescentes entre 2013 e 2019. Se considerarmos a infalibilidade da premissa de que violência gera violência, do mesmo modo que “gentileza gera gentileza”, como nos ensinou o profeta.
Temos de novo que concordar com o Unicef quando o Fundo nos alerta que “o adolescente deixou de estar submetido às ‘decisões arbitrárias de juízes de menores’ e passou a ser tratado “como pessoa especial em desenvolvimento’”. Só que quais são as condições reais de essa pessoa se desenvolver em comunidades de baixa renda, em meio a acentuados níveis de pobreza e de violência, em escolas precárias e não devidamente aparelhadas, muitos deles sem pais, parentes e outras pessoas que deles se encarreguem?
É comum dizermos que “a solução está na educação”. Claro que sim. E qual será de fato a qualidade da educação fundamental pública ou de Primeiro Grau que pode ser oferecida ao menor carente e/ou favelado?
Outro ponto discutível na abordagem do Unicef diz respeito à afirmativa de que “nesse sistema (sistema penitenciário brasileiro adulto), os adolescentes estarão expostos às facções do crime organizado e às precárias condições do sistema prisional brasileiro". O Unicef desconhece que os menores já se acham arregimentados por determinadas facções muito antes de praticarem seus primeiros atos delituosos.
É inegável que a solução passa pela educação, mas também pela eliminação das desigualdades sociais, do imenso fosso entre as classes mais aquinhoadas e as que pouco ou nada têm. E junto com esse menor desequilíbrio social, a modernização do sistema prisional adulto e correcional do menor. O que não se dá num passe de mágica num país como o nosso. E até lá, tem-se que fazer alguma coisa.

Rio, 13/07/2015
Aluizio Rezende 

 

Drogas são vendidas em drogarias
Em 1958, quando o Brasil foi campeão pela primeira vez, podíamos observar que alguns de nossos colegas tinham um jeito especial de andar, traziam no rosto certa rebeldia e não se misturavam com a gente. Tinham certo glamour também, invejado por muitos de nós. Só porque fumavam maconha. Drogas com outros nomes ainda não eram muito comuns, embora já existissem.
Hoje não há tanta necessidade de um jeito especial de andar, a rebeldia no rosto pode estar camuflada e "estamos juntos e misturados" no que se refere a muitas coisas, dentre elas a drogas. Observa-se agora a disseminação cada vez mais acentuada do seu uso. Que parece ter acompanhado o crescimento populacional e as inovações tecnológicas que mudam praticamente a cada dia.
Os costumes não poderiam ficar imunes a esse "boom" comportamental. O casamento entre nós e o celular é cada vez mais irreversível. O uso que o mais velho faz desse utensílio não pode ser igual ao que é feito pelos adolescentes ou mais jovens.
O avanço da medicina também implicou em novas formas de comportamento. Sobretudo se considerarmos o aumento da nossa expectativa de vida. Já que vivemos mais, é recomendável que sejamos mais saudáveis e ativos. E mais bonitos. Daí a procura pela apuração da forma física em conjunto com clínicas de emagrecimento e estética. Com resultados às vezes desastrosos, incluindo óbitos.
Nesse panorama, hoje o uso de drogas assume um aspecto igualmente diferenciado.  Pode ser, por exemplo, recreativo, quando não há dependência flagrante, ou compulsivo, quando a dependência é acentuada. Em 1958 certamente não era assim. Um executivo, um físico, um juiz, professor não usavam drogas como provavelmente usam agora. Nem de forma recreativa. Não são apenas os artistas que fazem uso de drogas de uma forma total ou controlada. Qualquer um em qualquer meio hoje faz isso.
Tornam-se, portanto, inócuas providências no sentido de coibir o uso de drogas. O mais acertado seria libera-las porque liberadas já estão. A liberação não se dá de forma oficial apenas porque favorece um dos mercados mais lucrativos do mundo. Implicando na proliferação de traficantes e seus cartéis, em que estão envolvidos muitas vezes autoridades, políticos e policiais. Presume-se que com a liberação total do uso de drogas, esse mercado clandestino perderia a importância que tem. Com reflexos progressivamente prejudiciais à sua gestão.
Muito mais importante que a proibição, seria a difusão planetária de informações a respeito dos prejuízos causados à vida humana pelo uso compulsivo de drogas. De modo a que cada um fosse levado a cuidar-se de si mesmo. Campanhas assim com a do aedes aegypti, no Brasil, ou a do vírus Ebola, no plano internacional, seriam mais interessantes para todos em qualquer país.

Rio, 20/01/2016
Aluizio Rezende

 

As galinhas e os juízes
Há certos juízes, promotores públicos, que vêm se empenhando no sentido de processar e prender políticos corruptos, empresários inescrupulosos e outros poderosos, ao amparo da lei e na garantia de amplo direito de defesa que todos merecemos.
No entanto, tais homens públicos, ao que parece agindo no cumprimento do dever, são objeto de críticas desfavoráveis e até mesmo campanhas difamatórias. Ora, mas não é isso o que o povo, o cidadão comum e trabalhador, deseja? Que sejam punidos os poderosos quando a culpabilidade deles seja inquestionável?
Prender um ladrão de galinhas é relativamente fácil. Processar e mandar prender um político é um pouco mais complicado. É preciso vencer a blindagem de que ele dispõe, constituída pelo foro privilegiado, pelo tráfico de influência, etc.
E é preciso ter coragem, por exemplo, para processar um ex-presidente da república que, apesar de ter sido afastado da Presidência por impeachment, tornou-se pouco depois senador. E teve recentemente seus luxuosíssimos carros importados – dignos de um marajá – devolvidos após serem apreendidos.
Quantas galinhas roubadas seriam necessárias para fazer com que o governo recorresse à CPMF para a restauração da combalida saúde financeira do país? Só se tivéssemos uma empresa no ramo galináceo do porte de uma Petrobrás. Ao passo que os prejuízos causados pelos desmandos financeiros à nossa maior empresa certamente provocaram um impacto desastroso na economia brasileira. Cuja recuperação impõe a criação de um imposto a ser sustentado pelo trabalhador. Que não se beneficiou de qualquer recurso indevido.
Não é que esses homens, também eles gozando de imunidades e foro privilegiado, devam ser endeusados. Mas se cumprem o seu dever com a desejável isenção que todos imaginamos, deviam, no mínimo, ser respeitados.

Rio, 17/01/2016
Aluizio Rezende

 

Alternativas
Vamos escolher? Ser vítimas de arrastões pela cidade? Dos impostos escorchantes do Governo? Da avidez arrecadatória com as Leis Secas e multas em vias e rodovias? Do deboche da propaganda dizendo que em tudo o Japão perde pra gente, com exceção da rapidez com que chegamos em casa após um dia de trabalho no Rio de Janeiro?
Com relação aos arrastões, autoridades nos dizem que seria um banho de sangue se à população fosse permitido o uso de armas. Como se para haver banho de sangue precisássemos de arrastões. E o que houve em Vigário Geral há alguns anos? E o que houve há poucos dias em Carapicuíba, São Paulo, mas que pode acontecer no Rio a qualquer momento? O fato é que os bandidos podem andar armados. A população é que não. Merece apenas estar à mercê deles.
Quanto aos impostos, se eles fossem investidos em serviços públicos, o nosso nível de vida seria um dos mais elevados do mundo. Compatível com os altos impostos que somos obrigados a pagar. Em contrapartida, deparamo-nos com políticos e autoridades se locupletando em meio a ilícitos que a cada dia são revelados. Ou renovados. E que implicam no uso do dinheiro do povo. Que depois é responsabilizado pelos rombos.
Foi preciso que o Brasil chegasse ao atual ponto de estagflação para que o Governo pensasse em reduzir ministérios, como uma das medidas para a solução da crise. Até há pouco tempo ministérios chegaram a ser criados para que políticos não eleitos não ficassem sem cargo.
A redução da inflação é um dos resultados esperados com as medidas destinadas à recuperação da saúde financeira do país. No entanto, não é possível que o Governo não reconheça que a reedição da CPMF constitui-se num mecanismo retroalimentador do processo inflacionário. Se em cada operação financeira realizada caberá a percentagem de 0,20 ou 0,38 ao Governo, esse custo será repassado ao consumidor pelos empresários, negociantes ou comerciantes quando da comercialização de seus produtos.
Outra questão discutível é a preservação de vidas com a instituição da Lei Seca e da aferição da velocidade nos logradouros através de equipamentos eletrônicos. Porque, na verdade, esses dispositivos se prestam muito mais a objetivos arrecadatórios. Tanto isto procede que quando o motorista não ingeriu álcool algum, ele tem seu carro apreendido se a documentação não estiver em ordem.
E os chamados pardais eletrônicos? São a maneira mais cômoda de se tirar dinheiro do contribuinte. Sob a alegação de que sua vida está sendo preservada. Quando pouco interessa se a pessoa sobreviveu ou não ao acidente, contanto que a notificação pela infração chegue com toda presteza à sua casa.
Quais as alternativas que temos, portanto? A única que nos parece viável, por mais irônico que possa parecer, é a de continuarmos sendo brasileiros. Ainda que a duras penas.   

Rio, 21/09/2015
Aluizio Rezende

 

A Barganha

A gente escuta assim: "A presidente está mais preocupada em manter o seu mandato que em administrar o país". E podemos então perguntar, será que está errado?

O oferecimento do Ministério da Saúde ao PMDB, talvez o nível mais acintoso do oportunismo partidário no Brasil, pode ter o objetivo de aplacar tendências ao pedido de impeachment a ser acatado, como se presumia, pelo presidente da Câmara dos Deputados. De perfil mais do que conhecido, por estar sendo processado no STF, a exemplo do seu colega do Senado. E por estar chamuscado, ao que tudo indica, pelas labaredas do fogo em expansão da Operação Lava Jato.

Pode ter também o objetivo de fazer com que Eduardo Cunha passe a ser favorável à aprovação da CPMF. Como se administrar o país fosse apenas uma questão de aumento de impostos.

O Governo faz uso, portanto, do seu poder de compra. Sabendo, é claro, que os políticos, via de regra, se vendem. E prossegue no loteamento de cargos ou ministérios a procura de apoio para que consiga governar. Ou continuar no poder.

O Governo aproveita-se da redução do número de ministérios para oferecer os que forem mantidos aos partidos políticos que possam dar sustentabilidade ao mandato e viabilizar o ajuste fiscal com o qual espera reverter a situação caótica em que o país se encontra. Ou em que foi colocado. Dólar aumentando todo dia. Um mercado amedrontado.

É possível que alguém possa dizer que nessa pequena digressão encontram-se erros conjunturais ou mesmo estruturais. Jamais nela reconhecerão a tentativa de isenção. Só não se pode dizer, ou não se poderia, é que ela seja tendenciosa. Na medida em que não consegue omitir ou escamotear o principal instrumento político de que se valem os governantes – a barganha. Com o qual eles nada perdem. E o país também nada ganha.

Rio, 24/09/2015
Aluizio Rezende

 

À Margem da Consciência
No Brasil certamente não se pode dizer que o povo tenha condições de tomar plena consciência de suas necessidades básicas. E menos ainda que tenha tomado consciência de sua força. Porque para isso seria necessário um nível de conscientização política cujo acesso é somente possível aos que tiveram uma formação educacional um pouco mais esmerada.
Os políticos têm plena consciência disso. Assim como setores da classe média e das categorias mais abastadas, numericamente, nos dois casos, inferiores ao povão.
Essa é a razão pela qual os investimentos em educação no país são sempre os mais baixos. Pois ao povo não é permitido chegar a um nível de consciência capaz de ameaçar os interesses das classes dominantes e seus agregados/aliados.
No Japão, por exemplo, o governo teve de desistir da construção de uma arena no valor de US$ 2 milhões para os próximos Jogos Olímpicos porque a população achou muito caro.
No Brasil, por ocasião da Copa do Mundo de Futebol, foram construídas inúmeras arenas, até mesmo onde nunca serão usadas intensamente, como no Amazonas, e o povo não pode se pronunciar. Como também não teve condições de saber que provavelmente todas elas foram superfaturadas. Um povo conscientizado não admitiria isso.
Como não admitiria (e nem votaria) como candidato ao cargo de senador da República o mesmo cidadão que comandara o confisco do dinheiro do povo quando no exercício da Presidência do país, da qual fora expurgado.
Também não admitiria que o presidente da Câmara dos Deputados, empossado no cargo apesar dos inquéritos a que responde no STF, considerasse inconstitucional o fato de ter que ir a Curitiba depor se tem a prerrogativa do foro privilegiado.
Não admitiria ainda um povo politicamente conscientizado que um Presidente da República, com todo o aparato informativo a serviço da Presidência, não tomasse o menor conhecimento do conjunto de atos de corrupção que ficou conhecido como Mensalão – processo com milhares de páginas e vários anos até ser concluído.
São coisas que só acontecem no país cuja maior parcela da população não tem meios de avaliar com um mínimo de bom senso a evolução dos acontecimentos políticos que interferem com os destinos da nação.

Maricá, 18/07/2015
Aluizio Rezende

 

A Família R$

Muito revoltante um ministro governista nos dar a entender que a CPMF é a única “medida necessária para recuperar a receita do governo e equilibrar as contas públicas”. E outro áulico nos ameaçar com a extensão dela (CPMF) até
2018 para o restabelecimento da saúde econômica do país. Quando sabemos que essa solução já foi tentada, com ínfimos resultados, na época do ministro Adib Jatene, no Governo FHC. Ou seja, continuamos com a mesma, ou pior, precariedade exatamente na área da saúde.

Enquanto lideranças políticas, à frente das mais importantes casas do legislativo, mantém contas na Suíça e gastam com a família, em despesas particulares, um dinheiro que na verdade não lhes pertence. Ensejando, por exemplo, na mídia – Redes Bandeirantes e Globo à frente – uma campanha que, a despeito de outros interesses, nos mostra a incontestável precariedade da saúde brasileira. Que nos deixa indignados quando comparamos os gastos desses apaniguados com as condições de nossos hospitais.

É muito difícil deixarmos de atrelar a atual situação econômica do país aos rumorosos casos de corrupção de que temos notícias todos os dias. É bem verdade que não são de hoje. Como também não o são as medidas profiláticas adotadas para combatê-los – a CPMF é uma delas – e que incidem no bolso de todos. Que devem ser responsabilizados por prejuízos causados por um grupo de privilegiados. Prejuízos agora não computados em milhões de reais, como na época do Jatene, mas em milhões de dólares!

Pra quê que um sujeito sozinho quer 8 milhões de dólares (ou reais, dá no mesmo)? Será que vai ter tempo de gastar tudo? Ou deseja constituir uma família real, possibilitando a já tradicional briga dos sucessores pela herança?

Felizmente parece haver dentro do próprio PT aqueles que se opõem à CPMF como solução para sairmos desse buraco em que nos meteram. Esperemos que isso se transforme numa indignação popular.

 Rio, 20/10/2015
Aluizio Rezende

 

A Barganha
A gente escuta assim: "A presidente está mais preocupada em manter o seu mandato que em administrar o país". E podemos então perguntar, será que está errado?
O oferecimento do Ministério da Saúde ao PMDB, talvez o nível mais acintoso do oportunismo partidário no Brasil, pode ter o objetivo de aplacar tendências ao pedido de impeachment a ser acatado, como se presumia, pelo presidente da Câmara dos Deputados. De perfil mais do que conhecido, por estar sendo processado no STF, a exemplo do seu colega do Senado. E por estar chamuscado, ao que tudo indica, pelas labaredas do fogo em expansão da Operação Lava Jato.
Pode ter também o objetivo de fazer com que Eduardo Cunha passe a ser favorável à aprovação da CPMF. Como se administrar o país fosse apenas uma questão de aumento de impostos.
O Governo faz uso, portanto, do seu poder de compra. Sabendo, é claro, que os políticos, via de regra, se vendem. E prossegue no loteamento de cargos ou ministérios a procura de apoio para que consiga governar. Ou continuar no poder.
O Governo aproveita-se da redução do número de ministérios para oferecer os que forem mantidos aos partidos políticos que possam dar sustentabilidade ao mandato e viabilizar o ajuste fiscal com o qual espera reverter a situação caótica em que o país se encontra. Ou em que foi colocado. Dólar aumentando todo dia. Um mercado amedrontado.
É possível que alguém possa dizer que nessa pequena digressão encontram-se erros conjunturais ou mesmo estruturais. Jamais nela reconhecerão a tentativa de isenção. Só não se pode dizer, ou não se poderia, é que ela seja tendenciosa. Na medida em que não consegue omitir ou escamotear o principal instrumento político de que se valem os governantes – a barganha. Com o qual eles nada perdem. E o país também nada ganha.

Rio, 24/09/2015
Aluizio Rezende

 

À Margem da Consciência

No Brasil certamente não se pode dizer que o povo tenha condições de tomar plena consciência de suas necessidades básicas. E menos ainda que tenha tomado consciência de sua força. Porque para isso seria necessário um nível de conscientização política cujo acesso é somente possível aos que tiveram uma formação educacional um pouco mais esmerada.
Os políticos têm plena consciência disso. Assim como setores da classe média e das categorias mais abastadas, numericamente, nos dois casos, inferiores ao povão.
Essa é a razão pela qual os investimentos em educação no país são sempre os mais baixos. Pois ao povo não é permitido chegar a um nível de consciência capaz de ameaçar os interesses das classes dominantes e seus agregados/aliados.
No Japão, por exemplo, o governo teve de desistir da construção de uma arena no valor de US$ 2 milhões para os próximos Jogos Olímpicos porque a população achou muito caro.
No Brasil, por ocasião da Copa do Mundo de Futebol, foram construídas inúmeras arenas, até mesmo onde nunca serão usadas intensamente, como no Amazonas, e o povo não pode se pronunciar. Como também não teve condições de saber que provavelmente todas elas foram superfaturadas. Um povo conscientizado não admitiria isso.
Como não admitiria (e nem votaria) como candidato ao cargo de senador da República o mesmo cidadão que comandara o confisco do dinheiro do povo quando no exercício da Presidência do país, da qual fora expurgado.
Também não admitiria que o presidente da Câmara dos Deputados, empossado no cargo apesar dos inquéritos a que responde no STF, considerasse inconstitucional o fato de ter que ir a Curitiba depor se tem a prerrogativa do foro privilegiado.
Não admitiria ainda um povo politicamente conscientizado que um Presidente da República, com todo o aparato informativo a serviço da Presidência, não tomasse o menor conhecimento do conjunto de atos de corrupção que ficou conhecido como Mensalão – processo com milhares de páginas e vários anos até ser concluído.
São coisas que só acontecem no país cuja maior parcela da população não tem meios de avaliar com um mínimo de bom senso a evolução dos acontecimentos políticos que interferem com os destinos da nação.

Maricá, 18/07/2015
Aluizio Rezende

 

Bom Exemplo

Sem dúvida não vamos errar se apontarmos o profundo desnível social entre as camadas populacionais como causa básica para a disseminação da criminalidade e da violência, ambas em franca interação com o tráfico de drogas. No entanto, não se pode considerar como desprezível, em termos de modificação da conduta dos indivíduos, o surto corruptivo que tem assolado o país nos últimos tempos. E que, devemos reconhecer, de uma forma ou de outra tem sido divulgado e até apurado, apesar das contrariedades eclodidas nos meios governista e oposicionista.
Se pensarmos bem, não se fala mais agora em desvios indevidos de recursos públicos da ordem de R$ 500 mil ou no máximo R$ 1 milhão. Fala-se comumente em milhões, às vezes até em milhões de dólares. Na irrefutável demonstração de uma avidez sem limites.
O cidadão casado, com um filho pequeno, que tenha casa própria e uma renda familiar em torno de R$ 17 mil (ele e a esposa), durante um bom tempo terá uma vida bastante confortável se receber como herança, ou acertar na loteria, a quantia de R$ 300 mil. Desde que durante esse bom tempo seus gastos sejam frugais e comedidos como sempre. Se o mesmo cidadão conseguir por meios lícitos ou ilícitos a quantia de R$ 1 milhão, terá seguramente alcançado a sua independência, se prosseguir gerenciando a sua vida financeira como fazia quando sua renda era de R$ 17 mil.    
Então, na verdade R$ 1 milhão é muito dinheiro. Não é preciso ter mais. Ocorre que se um figurão conseguiu apurar R$ 10 milhões num esquema qualquer da Lava Jato ou do Mensalão, não vou me contentar com R$ 800 mil, se faço parte do terceiro ou quarto escalão da equipe. Na hipótese de eu ter a função de assessor direto desse figurão, a minha expectativa ficará em torno de R$ 3 milhões, no mínimo.
Ou seja, um ilícito pode levar a outras possibilidades de ilícitos. 
Esses casos de corrupção são desastrosos porque sugerem às pessoas, se não houver a punição dos responsáveis, que a malversação do dinheiro público ou a sua obtenção criminosa torna-se agora o meio mais indicado para obtermos a nossa independência e vivermos tranquilamente. Com seus devidos reflexos nas camadas inferiores da população, atuando como estímulo aos mais variados tipos de crimes. Pois, se nas irregularidades cometidas pelas pessoas de colarinho branco, paletó e gravata a expectativa da receita nunca é inferior a milhões de reais, nós aqui embaixo não precisamos almejar tanto com as nossas ações.  
Por isso a impunidade é um mal de alta corrosão. Pois colabora com a destruição rápida dos valores éticos e morais cuja observação por todos representa o equilíbrio necessário à vida da nação. Como à própria vida pessoal.
Seria imprescindível que esses casos fossem todos apurados, independentemente da importância das pessoas envolvidas, e que seus responsáveis fossem punidos exemplarmente com todo o rigor da lei. Para que esse tipo de atitude não servisse de estímulo a práticas semelhantes por parte de outros segmentos da população, respeitadas as óbvias diferenças sociais.
Reportemo-nos de novo à Indonésia. Depois da condenação à morte dos dois brasileiros que tentaram entrar nesse país com certa quantidade de drogas, é possível que nenhum outro brasileiro, pelo menos por enquanto, tenha motivação para a mesma iniciativa.

Rio, 13/08/2015
Aluizio Rezende


Agonia Destemperada

Vivemos, sem dúvida, uma situação de muito desconforto. Presença de uma inflação crescente, economia praticamente estagnada, pífios índices de desenvolvimento, escalada de desemprego, etc. O desconforto não é experimentado apenas pelos governados, senão também pelos governantes. Que, por pior que possam parecer, estamos certos de que não desejariam esse estado de coisas para o seu país de origem. Estado de desconforto de que só se aproveitam os áulicos e os oportunistas que se valem de prerrogativas institucionais para exercerem, por exemplo, cargos de presidentes das casas do Congresso, mesmo respondendo a inquéritos/processos em tramitação no STF. Ou determinados negociantes e empresários cuja alma foi moldada na obtenção do lucro imedido a qualquer preço.
Tudo isso é incontestável. Ou o é de alguma forma. No entanto, esperamos que qualquer solução para o problema se dê pela via democrática. Se existe roubo em excesso, corrupção, etc., que os culpados sejam exemplarmente punidos. E de alguma forma estão sendo. Ainda que não exatamente como desejássemos.
O que não se pode admitir é que por conta desses abomináveis desmandos, dessa orgia corruptiva protagonizada por negociantes civis e políticos de todos os partidos, o que não se deve aceitar é que tenhamos como solução a agonia destemperada do sentimento reacionário. Como o compartilhado pelos depoimentos alucinatórios dos que elogiam os generais-presidentes do golpe de 64, lembrando que muito deles terminaram suas vidas em dificuldades financeiras, dependendo da ajuda de outras pessoas. Numa tentativa de compará-los com a boa vida de que desfrutam os que se beneficiam com as práticas corruptivas de hoje.
Os que advogam essa agressiva postura, até em tom de ameaça, esquecem-se de que esses mesmos generais foram, no mínimo, cúmplices da tortura e desaparecimento de centenas de inocentes, pessoas comuns do povo, além de determinados políticos, que ousaram contrariar a ditadura, fundamentada numa Doutrina de Segurança Nacional inteiramente “made” fora daqui. Isso sem terem conseguido, a despeito de todo o poder despótico a seu dispor, dotar o país dos níveis de desenvolvimento que merecemos. E ainda não temos.

Rio, 23/07/2015
Aluizio Rezende

 

Aniversário do ECA

O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) completa hoje 25 anos. Data que nos remete aos dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) segundo os quais “o número de homicídios de crianças e adolescentes (...) passou de 5 mil casos por ano, em 1990, para 10,5 mil casos por ano em 2013”. O que significa que perto de 28 crianças e adolescentes são assassinados por dia no Brasil.
As principais vítimas, para o Unicef, são meninos negros e pobres, vivendo “nas periferias e em áreas metropolitanas das grandes cidades”. Sustenta a organização que morrem quatro vezes mais adolescentes negros que brancos. E que, sendo o adolescente do sexo masculino, o risco de ele ser vítima de homicídio pode ser multiplicado por 12.
Para o Unicef, estamos apenas atrás da Nigéria “no ranking dos países com maior número de assassinatos de meninos e meninas de até 19 anos”.
Também o Unicef se coloca contra a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos por não se tratar de uma medida benéfica. Garantindo que a solução estaria na aplicação diária do que consta da legislação. Não é posição de que se deva discordar.
Entretanto, quais as chances práticas de que as medidas socioeducativas previstas no ECA possam contribuir para a ressocialização de um adolescente que estiver internado num estabelecimento correcional durante três anos, em condições às vezes similares às cadeias brasileiras? Isto é, um sistema prisional falido, caracterizado pela superlotação, torturas sistemáticas e com precárias chances de possibilitar a reintegração de alguém?
Um dado que nos chama atenção é que, segundo ainda o Unicef, “apenas 0,01% dos adolescentes brasileiros praticaram atos conta a vida”. Apesar de se tratar de uma porcentagem aparentemente pequena, pode ser que ela se amplie na exata medida em que, segundo as próprias estimativas do Unicef, sendo mantidas as condições atuais, o país pode registrar 42 mil assassinatos de adolescentes entre 2013 e 2019. Se considerarmos a infalibilidade da premissa de que violência gera violência, do mesmo modo que “gentileza gera gentileza”, como nos ensinou o profeta.
Temos de novo que concordar com o Unicef quando o Fundo nos alerta que “o adolescente deixou de estar submetido às ‘decisões arbitrárias de juízes de menores’ e passou a ser tratado “como pessoa especial em desenvolvimento’”. Só que quais são as condições reais de essa pessoa se desenvolver em comunidades de baixa renda, em meio a acentuados níveis de pobreza e de violência, em escolas precárias e não devidamente aparelhadas, muitos deles sem pais, parentes e outras pessoas que deles se encarreguem?
É comum dizermos que “a solução está na educação”. Claro que sim. E qual será de fato a qualidade da educação fundamental pública ou de Primeiro Grau que pode ser oferecida ao menor carente e/ou favelado?
Outro ponto discutível na abordagem do Unicef diz respeito à afirmativa de que “nesse sistema (sistema penitenciário brasileiro adulto), os adolescentes estarão expostos às facções do crime organizado e às precárias condições do sistema prisional brasileiro". O Unicef desconhece que os menores já se acham arregimentados por determinadas facções muito antes de praticarem seus primeiros atos delituosos.
É inegável que a solução passa pela educação, mas também pela eliminação das desigualdades sociais, do imenso fosso entre as classes mais aquinhoadas e as que pouco ou nada têm. E junto com esse menor desequilíbrio social, a modernização do sistema prisional adulto e correcional do menor. O que não se dá num passe de mágica num país como o nosso. E até lá, tem-se que fazer alguma coisa.

Rio, 13/07/2015
Aluizio Rezende

 

Bom Exemplo
Sem dúvida não vamos errar se apontarmos o profundo desnível social entre as camadas populacionais como causa básica para a disseminação da criminalidade e da violência, ambas em franca interação com o tráfico de drogas. No entanto, não se pode considerar como desprezível, em termos de modificação da conduta dos indivíduos, o surto corruptivo que tem assolado o país nos últimos tempos. E que, devemos reconhecer, de uma forma ou de outra tem sido divulgado e até apurado, apesar das contrariedades eclodidas nos meios governista e oposicionista.
Se pensarmos bem, não se fala mais agora em desvios indevidos de recursos públicos da ordem de R$ 500 mil ou no máximo R$ 1 milhão. Fala-se comumente em milhões, às vezes até em milhões de dólares. Na irrefutável demonstração de uma avidez sem limites.
O cidadão casado, com um filho pequeno, que tenha casa própria e uma renda familiar em torno de R$ 17 mil (ele e a esposa), durante um bom tempo terá uma vida bastante confortável se receber como herança, ou acertar na loteria, a quantia de R$ 300 mil. Desde que durante esse bom tempo seus gastos sejam frugais e comedidos como sempre. Se o mesmo cidadão conseguir por meios lícitos ou ilícitos a quantia de R$ 1 milhão, terá seguramente alcançado a sua independência, se prosseguir gerenciando a sua vida financeira como fazia quando sua renda era de R$ 17 mil.    
Então, na verdade R$ 1 milhão é muito dinheiro. Não é preciso ter mais. Ocorre que se um figurão conseguiu apurar R$ 10 milhões num esquema qualquer da Lava Jato ou do Mensalão, não vou me contentar com R$ 800 mil, se faço parte do terceiro ou quarto escalão da equipe. Na hipótese de eu ter a função de assessor direto desse figurão, a minha expectativa ficará em torno de R$ 3 milhões, no mínimo.
Ou seja, um ilícito pode levar a outras possibilidades de ilícitos. 
Esses casos de corrupção são desastrosos porque sugerem às pessoas, se não houver a punição dos responsáveis, que a malversação do dinheiro público ou a sua obtenção criminosa torna-se agora a maneira correta de se proceder. Com seus devidos reflexos nas camadas inferiores da população, atuando como estímulo aos mais variados tipos de crimes. Pois, se nas irregularidades cometidas pelas pessoas de colarinho branco, paletó e gravata a expectativa da receita nunca é inferior a milhões de reais, nós aqui embaixo não precisamos almejar tanto com as nossas ações.  
Por isso a impunidade é um mal de alta corrosão. Pois colabora com a destruição rápida dos valores éticos e morais cuja observação por todos representa o equilíbrio necessário à vida da nação.
Seria imprescindível que esses casos fossem todos apurados, independentemente da importância das pessoas envolvidas, e que seus responsáveis fossem punidos exemplarmente com todo o rigor da lei. Para que esse tipo de atitude não servisse de estímulo a práticas semelhantes por parte de outros segmentos da população, respeitadas as óbvias diferenças sociais.
Reportemo-nos de novo à Indonésia. Depois da condenação à morte dos dois brasileiros que tentaram entrar nesse país com certa quantidade de drogas, é possível que nenhum outro brasileiro, pelo menos por enquanto, tenha motivação para a mesma iniciativa.

Rio, 13/08/2015
Aluizio Rezende



A Cartilha
"Para impedir que os infiéis sigam logicamente uma ideia até o fim, lhes desviaremos a atenção para as diversões, os jogos, os desportos, o luxo e as casas públicas. Estes prazeres lhes impedirão que se ocupem de questões sérias, pelas quais, em outro caso, lutariam conosco. Ao passo que se forem perdendo o hábito de discorrer por conta própria, os homens se nos irão entregando cada vez mais, porque só nós seremos capazes de lhes oferecermos continuamente ideias novas...”
Ensinamentos como os acima descritos configuram-se numa estratégia de domínio ou controle de uma sociedade e, por extensão, da alma humana. Interessante notar a peculiaridade de que se revestem em relação ao nosso momento atual – o Carnaval. Com a exacerbada campanha de divulgação conduzida pela maior rede de TV do país. A mesma que conseguiu alterar os horários das partidas de futebol – outro tipo fundamental de divertimento – em função da programação de suas telenovelas.
É evidente que com tal tipo de apelo, até mesmo pessoas que se consideram não alienadas não conseguem se ocupar de questões mais sérias como, por exemplo, a reiteração, em altos níveis, do processo corruptivo enraizado no país há bastante tempo. Ou do que deixam de fazer em prol da comunidade os políticos por ela eleitos. Esse desvio compulsório da atenção da população para a festa momesca tem um efeito anestesiador sobre os problemas que atingem diretamente a comunidade. E funciona também como uma trégua aos governantes, além do exercício de domínio sobre o conjunto dos munícipes. O mais engraçado é que esse quadro não tem chance de ser alterado facilmente. A menos que fossemos vítimas, durante o período festivo, de um tsunami ou de uma falta de água absoluta.
É preciso que se entenda que o propósito aqui não é o ensejo de uma campanha contra o Carnaval. Até porque seria totalmente inócua. O Carnaval está em nosso sangue, em nossa alma. Quase que nascemos sambando. Trata-se apenas de chamar a atenção para o reconhecimento de uma estratégia. Tendente a anestesiar a sociedade através de uma festa tradicionalmente brasileira. Com grandes possibilidades de representar a atrofia dos cérebros daqueles que, sob o ponto de vista dos dominadores, são considerados infiéis.

Rio, 15/02/2015
Aluizio Rezende    

 


A Caminho do Social
Segundo teóricos da evolução social no mundo, “o desenvolvimento histórico das sociedades capitalistas se está processando no sentido de uma socialização progressiva”.
Sem nenhuma necessidade de apologia ao dirigente comunista Luís Carlos Prestes, lembramo-nos dele dizendo que “o mundo caminha para o socialismo”. O que aconteceu por volta da década de 80, numa reunião política no Engenho Novo, provavelmente depois de ser anistiado.
O que se pode constatar, ao menos, pela “distribuição cada vez mais igualitária dos produtos do trabalho humano, em consonância com a democratização das instituições sociais e políticas”.
De fato, os serviços relacionados à mobilidade urbana e o custo de artigos básicos de alimentação e vestuário em sociedades como a americana, por exemplo, estão ao alcance de uma parte expressiva da população. O que não acontece em países da América Latina.
No entanto, segundo outras opiniões, não é pelo maior alcance social mostrado pelo amadurecimento do capitalismo que se vai chegar ao socialismo. Mas, sim, pela “generalização dos procedimentos que minam as condições institucionais indispensáveis à preservação do capitalismo”.
Ou seja, que “condições institucionais indispensáveis” seriam essas? Por exemplo a instituição do lucro, normalmente projetado como o maior possível, que determina a extensão e profundidade do fosso entre as classes dirigentes e mais aquinhoadas e as categorias subalternas.
Essa contradição interna de que se constitui, em que pese o seu amadurecimento traduzido pela constatação de condições de maior alcance social, não impedirá a possível condução do capitalismo ao socialismo. Em função de um acentuado desequilíbrio social que caracteriza a existência do primeiro. E que deverá ser combatido, até finalmente ser minimizado ou reduzido a níveis toleráveis, pelas camadas sociais inferiores.

Rio, 17/02/2015
Aluizio Rezende    

 


7 Arenas Especiais
As nações estão sempre competindo. E essa competição, que ocorre em toda parte, acontece no momento no Brasil.
O mundo está na Copa. E até agora temos a presença do chamado Terceiro Mundo na Liderança. Com oito de seus países, dentre os doze classificados para as Oitavas de Final. São eles: Brasil, Chile, Colômbia, Uruguai, Nigéria, México, Costa Rica e Argentina.
Seria bom se tudo se desenvolvesse como no futebol. Poderíamos pensar numa correlação de forças. Só que as coisas não funcionam assim.
"O 'Grupo dos 77' nas Nações Unidas é uma coalizão de nações em desenvolvimento que visa promover os interesses econômicos coletivos de seus membros e criar uma capacidade maior de negociação conjunta na ONU (Organização das Nações Unidas)".
O engenheiro civil Luis Fernando Jaramillo, falecido em Bogotá a 23/11/2011, foi presidente da Odinsa SA, uma das empresas de engenharia líder na Colômbia, e chegou ao cargo de Vice-presidente desse país, tendo sido eleito em 1990.
Num dos seus discursos dirigidos ao Grupo dos 77, Jaramillo referiu-se "à hostilidade do meio ambiente internacional e à perda da importância política e econômica das nações em desenvolvimento na chamada Nova Ordem Mundial, no despertar do século 21". Em meio à euforia gerada pelo fim da Guerra Fria, pelo programa de liberalização econômica e pelos acordos internacionais como o GATT (Acordo Geral de Tarifas e Comércio).
Para Jaramillo, a estratégia dos países ricos "dirige-se claramente ao fortalecimento cada vez maior das agências e instituições econômicas que operam fora do sistema das Nações Unidas que, apesar das suas deficiências, permanece como o único mecanismo multilateral com que podem contar os países em desenvolvimento".
Num sentido adverso, as instituições geradas nas conferências de Bretton Woods (sistema de gerenciamento econômico internacional), tais como o Banco Mundial, FMI e outras, "vêm se transformando no centro de gravidade das principais decisões econômicas que afetam os países em desenvolvimento. Caracterizando-se tais instituições pelo seu caráter antidemocrático, pela falta de transparência, pelos seus princípios dogmáticos, pela falta de pluralismo no debate de ideias e pela sua incapacidade de influenciar as políticas desenvolvidas pelos países industrializados", cujos setores dominantes são atendidos por essas mesmas instituições.
"Os acordos estabelecidos pelo GATT, em conjunto com o Banco Mundial e o FMI, constituem-se na 'Nova Trindade Institucional' que teria como função específica controlar e dominar as relações econômicas submetidas ao mundo em desenvolvimento", enquanto os países industrializados "utilizam-se de canais fora da conjuntura normal, como as reuniões do G-7, para a realização em separado de seus acordos".
Dessa forma, enquanto por aqui presenciamos as nações utilizando-se dos mesmas arenas, apesar das obras inacabadas, com todo o alto custo de construção, dos problemas de segurança e mobilidade urbana, etc., lá fora as pelejas acontecem em campos diferentes. Em que não se permite a presença de quem não tiver sido convidado. Nos quais realizam-se jogos cujos resultados deverão ser acatados por todos aqueles que deles não puderam participar.

Rio, 26/06/2014
Aluizio Rezende    

 

Impotência Regional
"Desculpe, amigo, mas vou ter que sair agora. Lá onde moro, a coisa tá feia se a gente chegar muito tarde", diz a poeta Neude ao deixar o Poveb. Rinaldo Leite, outro grande poeta, mostra a carteira vazia. "Tiro tudo da carteira quando pego o ônibus. Assim não corro o risco de perder dinheiro, cartões, etc.".
É assim que as pessoas vivem em nossa cidade. Continuam acontecendo assaltos em ônibus, trens e agora até no Metrô, dotado de segurança particular. Como acontecem a qualquer hora do dia e da noite, em qualquer canto do Rio.
É claro que a redução da maioridade penal não vai resolver absolutamente nada. E que com ela o foco continuará sendo o efeito e não a causa. Mas a causa só teria chances de ser combatida se tivéssemos uma renda per capita maior; menores níveis de desigualdade social; maiores índices de alfabetização; maior número de escolas públicas aparelhadas e em condições de oferecer um ensino de melhor qualidade; menores contingentes de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza nos grandes centros; hospitais e postos de saúde públicos em condições de atender à população que não pode pagar por serviços médicos de qualidade, etc. Enfim, se fossemos de fato uma potência global. O que só cabe na cabeça do Obama – no seu papel aristocrático, mas demagógico, direcionado normalmente ao mundo subdesenvolvido, sobretudo às nações ainda provedoras de matérias primas ao Primeiro Mundo. Como o nosso país.
Os dispositivos militares e civis com capacidade de proporcionar algum tipo de repressão têm hoje dificuldade de se achar em toda parte em que ocorram agressões a pessoas indefesas. Não há tantos policiais para o número sempre crescente de bandidos, menores ou adultos.
Não se pensar em absolutamente nada, em nenhum tipo de ação que se oponha a essa modalidade de impunidade, é simplesmente estabelecer uma relação de cumplicidade com a disseminação da insegurança. Ainda que não nos descuidemos de todas as suas causas, de que tantos políticos já nos falaram, e cuja redução seria realmente a solução do problema.
Rio, 06/07/2015
Aluizio Rezende    

 

Da Série “Bate Papo com o Pessoal do Segundo Grau”
As primitivas sociedades rurais de caráter privatista ou os “estados rurais artesanais fundados na propriedade privada e no escravismo pessoal”, aproveitando-se de inovações tecnológicas a que conseguiram ter acesso, “condicionadas por certas formas de organização social para a produção de bens, acabaram por condenar à penúria não apenas estrangeiros escravizados, mas uma parcela crescente da própria etnia nacional” (D. Ribeiro, 1977).
Não é de certo modo o que se vê no mundo de hoje? Mesmo nos EUA podem ser identificados certos bolsões de pobreza e miséria. Onde são encontrados não apenas afro-americanos ou latinos americanos de diferentes nacionalidades, mas também eventualmente descendentes diretos dos anglo-saxões, ainda que em número menor ou muito menor. 
Enquanto isso, os povos do chamado Terceiro Mundo (basicamente Ásia e América Latina), alguns ainda sob condições rurais, submetem-se a um tipo de escravismo moderno na produção de bens em sua maioria destinados aos clientes mais poderosos, dominadores ou neo-colonizadores. Podendo se contentar, no máximo, com os excedentes dessa produção.
É assim que grande parte do petróleo produzido na Venezuela – um dos maiores produtores do mundo – não fica lá. Assim como quase todo o ouro extraído no Brasil não ficou aqui no período colonial. E tem a madeira, o ferro, o manganês, a bauxita, etc. Até a babosa, com todas as suas propriedades medicinais, foi lá pra fora e voltou pra gente para ser consumida com o nome de aloe-vera...
Rio, 02/02/2015
Aluizio Rezende    

 

Alimentação Saudável
“Homens (e mulheres) excepcionalmente cruéis são também profundamente religiosos”. Procuram valer-se da religião “como meio de apaziguar a consciência”.
É o que lemos no livro “Os Mais Perversos da História”, da britânica Miranda Twiss. Livro que pode ser discutível sob diversos aspectos, mas não sob esse ponto de vista. Ou não teríamos vindo desde Torquemada, que poderíamos chamar de o rei da Inquisição, e Vlad Tepes Drácula, ou “Vlad, o Empalador”, ambos no século XV, até os dias de hoje, com Jim Jones e a Congregação para a Doutrina da Fé, para ficarmos com esses dois exemplos.
A religião tortura e mata, física ou espiritualmente, em nome da salvação. Que estranho ou antagônico desígnio este, que estabelece a eliminação física de pessoas como forma de se chegar à sua salvação.
Nos dias de hoje, a tortura religiosa se dá mais comumente sob a forma mental. Mas não estão excluídas as ocorrências físicas, como as que, vez por outra, nos deparamos no noticiário, envolvendo o sacrifício de crianças ou mesmo adultos.
Muitas vezes o desaparecimento de pessoas ou líderes atende aos interesses de grupos importantes dentro de organizações religiosas. Pode ser o que tenha ocorrido com o papa João Paulo I, o que se pode inferir de uma das sequências do filme “O Poderoso Chefão” ou do livro “Em Nome de Deus” (In God’s Name), do também britânico David Yallop.
Nesse sentido, a religião assume o seu caráter talvez mais predominante, que é o político, frequentemente encoberto pelo manto religioso. Não é à toa que prelados, papas, cardeais, rabinos, aiatolás, etc. estão sempre muito próximos dos governantes, influindo em suas decisões ou tomando-as em conjunto. O Vaticano, por exemplo, é muito mais um Estado que uma Igreja, não podendo ser a sua posição desprezada pelos líderes do Leste ou do Oeste. Ou pelos poderosos conglomerados financeiros que se constituem no poder invisível no mundo.
No entanto, que não se conclua apressadamente daqui a noção de que pouco contribui para nós a fé religiosa. Nada disso. As religiões, todas elas, devem ser professadas livremente. E cada um deve ter o direito de delas se aproximar como quiser. O mergulho é que talvez deva ser com cautela – como canja ou caldo de galinha, que não fazem mal a ninguém.

Rio, 14/01/2015
Aluizio Rezende



Estapafúrdia Medida
A pequena cidade de Borborema, no interior paulista, foi tomada pela comoção de um velório com a presença de cerca de 1/5 de sua população, ou 3 mil pessoas. Em decorrência das vítimas de um acidente entre um ônibus e uma carreta, que “teria invadido a pista contrária provocando o choque”.
Cerca de onze pessoas vieram a falecer, em sua maioria jovens entre 15 e 17 anos.
Nada a fazer a não ser lamentar, e muito, um trágico acidente dessa natureza. Comoção que se amplia diante do fato de os estudantes terem sido enterrados com seus uniformes escolares. Coisas que teremos muito ainda que lamentar enquanto o modelo rodoviário for o preponderante na mobilidade urbana ou interurbana.
Enquanto isso, recebemos como notícia mais uma “pérola”: as multas de trânsito serão elevadas em 900%! O que pode não ter nada a ver. Mas não nos admiraríamos se esse acidente tivesse sido a gota d’água.
Face a um procedimento dessa natureza de nossas autoridades, a tendência imediata é o aumento da corrupção e do suborno em nossas estradas e vias públicas. Pois nossos policiais, políticos e governantes estão tão despreparados quanto nossos motoristas. Quando o indivíduo comparecer diante de um guarda de trânsito ou policial rodoviário para ser punido, ele vai pensar (ou talvez nem pense) se não é melhor desembolsar R$ 80 ou R$ 100 reais ali na hora ou ter que receber no conforto de sua residência uma multa no valor de R$ 900,00.
É do mesmo modo lamentável que os homens que conseguem aprovar essa estapafúrdia medida não entendam que os acidentes ocorrem pela falta de educação dos motoristas. Educação que poderia vir do primário. E também pelo número excessivo de veículos em nossas estradas. Nada se fazendo para que eles sejam em boa parte retirados das vias públicas. O que se conseguiria com a priorização do transporte sobre trilhos ou aquaviário, em regiões onde esse último fosse pertinente.
No caso específico do transporte ferroviário, onde as vias são efetivamente expressas, os acidentes também podem ser inevitáveis. Como ocorrem no Japão, EUA, Canadá, Europa – nos chamados centros de Primeiro Mundo. E aí? A quem caberia a multa? Aos usuários também?

Rio, 31/10/2014
Aluizio Rezende  

 

Casas de Cultura
A gente aprende que não é uma boa ser saudosista. O saudosismo incomoda. Tanto que ninguém desconhece a expressão, já meio desgastada, “quem gosta de passado é museu”.
Houve um tempo em que as igrejas tinham todas uma arquitetura muito aproximada. Como é ainda hoje. O que fazia com que as identificássemos rapidamente. Eram em sua maioria católicas.
Havia também, como ainda há, as chamadas igrejas batistas. Evangélicas e em menor número que as católicas. E que permanecem como eram. Com o detalhe de que funcionavam em prédios que viviam em geral com suas portas fechadas. Como se não fosse permitido o acesso a qualquer um.
Enquanto as igrejas católicas estavam sempre abertas. O que não as tornavam nem piores nem melhores que as outras, se quisermos usar o aforismo do Salgueiro (“nem melhor nem pior, apenas diferente”). Assim como o católico e o protestante, que podem ser da pior ou melhor índole, ainda que, no frigir dos ovos, o Deus seja o mesmo.
E aí surgiram os evangélicos de hoje. Um núcleo neopentecostal em que podem ainda ser identificados resquícios do movimento iniciado na Europa no século XVI pelo teólogo cristão Martinho Lutero, que se opunha às práticas e doutrinas da Igreja Católica. Alguns andaram chutando imagens por aí.
Sendo que a proliferação de seus templos se deu de tal forma que não existe, e nem precisa, qualquer tipo de arquitetura específica. Qualquer loja vazia, pequena ou não, de frente para a rua, oficina de peças de automóveis desativada, padaria, pet shops, lojas de balas, galpões, etc., tudo pode se tornar uma igreja evangélica. Se não houver um letreiro, como o de um supermercado, não poderemos identificá-las facilmente.
Talvez possamos dizer que, no início, os imóveis preferidos eram os cinemas. Com a construção de shoppings pela cidade, a maioria deles dotados de salas de projeção, e o aumento progressivo e incontrolável da violência por todos os bairros do Rio e pelo país, os cinemas de nossas ruas foram sendo paulatinamente desativados. Tornaram-se antieconômicos.
Disso se aproveitaram os evangélicos de hoje para transformar verdadeiras casas de cultura em casas de cultura de religiosidade duvidosa. Onde é essencial o pagamento do dízimo, estimulado em cultos diários, assim como a prática do exorcismo. O que projetou no mercado a profissão de pastor, bispo, bispa ou seja lá o que for. Pela possibilidade dos apreciáveis rendimentos auferidos.
Nada de errado ou certo nisso. Trata-se apenas do sinal dos tempos. Ou dos templos. Que podem conduzir certas pessoas a se preocuparem com bobagens como o saudosismo.

Rio, 27/11/2013
Aluizio Rezende  






Tambores e Tamboretes
Ao tempo em que concluímos a leitura do volumoso romance de Josué Montello, “Os Tambores de São Luís”, deparamo-nos com as notícias dos gravíssimos acontecimentos envolvendo a segurança dessa bela cidade, capital do M...aranhão. Ao que tudo indica, deflagrados a partir da incontornável crise no sistema penitenciário local. Aliás, um problema comum a todo o estado brasileiro, só que talvez mais agravado em São Luís.

A partir desse noticiário, pode-se estabelecer um paralelo muito próximo ao que acontecia com os negros no tempo da escravidão – onde São Luís destacava-se pela grande ferocidade e iniquidades com que eram tratados os escravos – e o que acontece agora com os mais pobres, que são a maioria, como no tempo dos negros, em relação à elite dominante.

Comparativamente, as atrocidades cometidas contra os negros no tempo da escravidão são as mesmas a que agora está exposto o povo maranhense, num dos estados mais miseráveis da Federação. Isto porque é de tamanho acintoso, de tão grande, a distância que separa as classes mais abastadas do povo da terra do grande Gonçalves Dias. Terra que vem sendo sugada e espoliada há décadas. E que vem cevando nesse mesmo tempo uma mesma família.

Do mesmo modo que a província de São Luís tinha um presidente no tempo dos escravos, hoje temos um presidente do Maranhão. E todos sabemos quem é.

Sua importância neste país é tão grande que dele se aproximaram os governos FHC, Lula e Dilma – querendo que acreditássemos, os dois últimos, que se tratavam de governos com tendências esquerdistas ou socialistas.

É bom lembrar que José Sarney só foi presidente do Brasil porque não representava qualquer ameaça ao desastroso e fatídico projeto militar ou à sua quartelada, tantas vezes combatida por muitos dos que estão hoje no poder, a começar pela presidente do país. Os militares tinham sempre seus olhos voltados para os subversivos ou comunistas que assaltavam bancos ou tinham em casa livros de Mao e Ho Chi Minh. Mas não conseguiam enxergar a escravidão que se processava no Maranhão à época, como agora, muito depois de promulgada a Lei Áurea.

Neste tenso momento vivido pela população maranhense, torna-se ultrajante e acintoso o anúncio de licitação no valor de R$ 1,3 milhão para compra de comidas e bebidas para o cerimonial e eventos no Palácio dos Leões, bem como para “a despensa das residências oficiais da governadora Roseana Sarney (PMDB)”, filha do nosso ilustre bigodudo, acadêmico e imortal.

Caviar, lagosta, patinhas de caranguejo, pudim de camarão, whisky, vinhos e champanhe importados – gastos fúteis e frívolos, inapelavelmente suscitados e programados diante dos dramas e dificuldades diárias vividos pela população de todo o estado, não apenas a carcerária.

E o governo federal não se pronuncia da forma que pudéssemos esperar. Do que não se acha capaz pelas ligações e o apoio devido à oligarca família possuidora do Maranhão.

Resta-nos a esperança de que rufem agora, como tanto já rufaram ontem, os tambores da Casa-Grande das Minas, na esperança de que possam ser ouvidos por algum Damião.

Rio, 09/01/2014
Aluizio Rezende








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